Juliano Moreira :


Projae

Um brasileiro extraordinário


Um fato histórico pouco divulgado foi à visita de Albert Einstein ao Brasil em 1926. Há controvérsias, pode ter sido em 1925. O fato é que o ilustre cientista esteve hospedado no Hotel Glória do Rio de Janeiro e no dia sete de maio falou para o mundo científico brasileiro na sede da Academia Brasileira de Ciências. Sua conferência foi apresentada em francês e o assunto era extremamente atual na época: Resultados obtidos na Alemanha nos Estudos sobre a Natureza da Luz, comparando a teoria ondulatória e a dos quantas. (Esta conferência foi publicada no Vol.1 número 1 pág.1:3 da Revista da Academia Brasileira de Ciências).
Einstein surpreendeu-se ao encontrar na presidência dos trabalhos um senhor de olhos grandes e penetrantes, pele escura, e franzino. Era Juliano Moreira, presidente da ABC e reconhecido pela inteligência brasileira não só como um grande médico, mas "como um sábio, no mais amplo e rigoroso significado dessa expressão."
Seu currículo na Academia foi o seguinte:
1917/1920 - Vice-Presidente
1920/1923 - Vice-Presidente
1923/1926 - Vice-Presidente
1926/1929 - Presidente
30/04/1929 - Presidente Honorário
Na Sociedade Brasileira de Neurologia, Psychiatria e Medicina Legal ele recebeu o título de Presidente Perpétuo.
Que estranho fascínio esse homem exercia nos colegas e nas pessoas que o cercavam. Foi admirado e venerado por seus pares e, como veremos, reconhecido mundialmente.
Segundo seu discípulo Afrânio Peixoto, de quem extraímos muitas das informações, Juliano era múltiplo. Foi médico, tropicalista, dermatólogo, sifilógrafo, alienista, psicólogo, naturalista e historiador da Medicina. Sob qualquer ângulo que examinamos a história de Juliano Moreira, ela é extraordinária. Quem poderia imaginar tão brilhante carreira para um menino negro nascido e 6 de janeiro de 1873, na cidade de Salvador, Bahia, no Bairro da Sé. Criado pela mãe, foi reconhecido mais tarde pelo pai. Começou a estudar no Colégio D. Pedro II e depois no Liceu Provincial. Entrou cedo para a Faculdade de Medicina (1886) e formou-se com 18 anos, em vésperas de completar 19, em 1991. Durante o curso e sempre através de concursos, foi interno da Cadeira de Moléstias Cutâneas e Preparador de Anatomia Médico-Cirúrgica. Sua tese de doutoramento foi sobre Etiologia da Sífilis Maligna Precoce. (Segundo Afrânio, essa Tese mereceu honrosas referências do sifilógrafo Buret e do neurólogo Raymond).
Na Bahia de Juliano registramos as seguintes posições:
Hospital de Santa Isabel da Faculdade de Medicina da Bahia:
Interno da Clínica Dermatológica e Sifilográfica (1890).
Assistente da Cadeira de Clínica Psiquiátrica e Doenças Nervosas (1893-?).
Preparador da Cadeira de Anatomia Médico-Cirúrgica (1894-?).
Lente substituto, da 12ª Seção de Clínica Psiquiátrica (1896-?).
Médico Adjunto do Hospital Santa Isabel.
Hospital São João de Deus: Alienista (1893-1903).
Para o concurso de Lente da Faculdade de Medicina (Clínica Psiquiátrica e Doenças Nervosas) apresentou a Tese: Discinesias Arsenicais).
Seu concurso foi uma luta árdua, contra a inveja, o preconceito, as picuinhas acadêmicas que já existiam naquela época. O Prof. Tilemont Fontes não facilitava vida para Juliano. Sobre ele assim se expressou Afrânio Peixoto; "O titular da Cadeira, então, esse, manso, sorria, não dava aula, tinha fama de inteligente, por que não produzia nada, mas alunos virgens e delicados, convinham que lhes resumia suficientemente a especialidade.
De uma reportagem do Correio da Bahia-Repórter, de 30 de julho de 2001, extrai o seguinte trecho: Ainda era cedo, os portões da Faculdade de Medicina da Bahia nem tinham sido abertos, mas já havia um movimento intenso de estudantes no Terreiro de Jesus. É que eles ardiam em curiosidade para conhecer o resultado do concurso para professor que, finalmente, seria divulgado. Os estudantes tinham acompanhado tudo de perto, lotando o salão nobre em cada uma das fases: prova prática, de didática e defesa de tese. O objetivo era evitar "marmelada", afinal, eles sabiam que não seria fácil para o jovem médico negro Juliano Moreira vencer um concurso numa instituição com fama de racista, frente a uma banca examinadora majoritariamente escravocrata. A libertação dos escravos, com a assinatura da Lei Áurea,tinha acontecido há apenas oito anos. Foi por isso que, naquela manhã de maio de 1896, quando finalmente entraram no prédio, os futuros médicos mal puderam acreditar no resultado afixado no mural: ao todo, Juliano tinha recebido 15 notas dez. A vaga era dele.Aquele foi um dia memorável para todos os estudantes, que comemoraram até altas horas a vitória do mérito sobre o preconceito. Juliano era famoso e querido desde os tempos de estudante, por sua modéstia e genialidade: tinha concluído o curso de medicina com apenas 18 anos de idade, com uma tese que tornou-se conhecida internacionalmente. Agora, com apenas 23 anos, tinha conseguido superar concorrentes poderosos e se tornava o mais novo professor da faculdade. Mas, para esse rapaz - filho de uma doméstica e de um funcionário da prefeitura, que só assumiu o filho quando ficou viúvo - a Bahia foi só o começo: não demorou muito para ele ganhar o mundo e tornar-se o mais importante psiquiatra brasileiro.
Ana Maria Oda e Paulo Dalagalarrondo em seu excelente artigo sobre Juliano citam: Em seu discurso de posse, ao ser aprovado no concurso para professor da Faculdade de Medicina da Bahia, em maio de 1896, Moreira descreveu de forma tão elegante quanto contundente o que parece ser sua experiência pessoal com relação ao marcante preconceito de cor na sociedade brasileira de então. Endereçando-se "(...) a quem se arreceie de que a pigmentação seja nuvem capaz de marear o brilho desta faculdade (...)", disse: "Subir sem outro bordão que não seja a abnegação ao trabalho, eis o que há de mais escabroso. (...) Em dias de mais luz e hombridade o embaçamento externo deixará de vir à linha de conta. Ver-se-á, então que só o vício, a subserviência e a ignorância são que tisnam a pasta humana quando a ela se misturam (...). A incúria e o desmazelo que petrificam (...) dão àquela massa humana aquele outro negror (...)"
Segundo Afrânio Peixoto, ainda na Bahia, Juliano deixou marcas do seu talento e produtividade. Vou apenas transcrever o que Afrânio escreveu em conferência de homenagem a Juliano Moreira: Com Pacheco Mendes, Nina Rodrigues, Alfredo Britto e outros, fundou a Sociedade de Medicina e Cirurgia e a de Medicina Legal da Bahia. Naquela Associação foi que, pela primeira vez no Brasil, em 1895, descreveram a existência, entre nós, do Botão endêmico, afirmativa plenamente confirmada alguns anos depois, com a descoberta do gérmen do mal. Freqüentou na Europa os cursos de doença mentais dos Profs. Jolly, Hitzig, Flechsig, Kraft-Ebing, etc.; os de clínica médica de Leyden e Nothnagel, etc.; os de anatomia patológica de Virchow; fez no Dermatologium, do Prof. Unna, estudos Anatomopatológicos muito completos sobre o Ainhum; ouviu as lições de Raymond, Dejerine, Gille de la Tourette, Brissaud, Garnier, Maurice Fournier, Magnan, etc., na França. Visitou as principais clínicas psiquiátricas e manicômios da Alemanha, Inglaterra, Escócia, Bélgica, Holanda, Itália, França, Áustria, Suíça, etc.. Foi quem primeiro descreveu entre nós a Hydroa vacciniforme (casos publicados em 1895 no British Journal of Dermatology). Dele são os primeiros exames microscópicos feitos entre nós de casos de micetoma, observados na Bahia, na clínica do prof. Pacheco Mendes, assim como do caso de Goundum, descrito por este professor. Por ele foi efetuado, no laboratório do Dermatologium, do grande dermatologista alemão, prof. Unna, o estudo anatomopatológico mais completo, até hoje existente, do Ainhum, sendo sua monografia, publicada em alemão, um dos trabalhos feitos por brasileiro mais citado no estrangeiro (Scheube, Mansor, Mense, Jeanselme, Le Dantec, etc.). Foi o introdutor no Brasil da clinoterapia, como método de tratamento das doenças mentais. Foi quem primeiro efetuou, na clínica neurológica e psiquiátrica da Bahia, de que foi assistente e, depois, professor substituto, a punção lombar com fins de diagnóstico, em casos de tabes dorsalis, demência paralítica, sífilis cerebral e meningites várias. De sua conferência na Sociedade de Medicina e Cirurgia da Bahia, subordinada ao título "A necessidade dos laboratórios nos serviços hospitalares" e depois publicada na "Gazeta Médica" e transcrita em várias outras revistas, resultou a criação de tais serviços em várias clínicas e em vários hospitais. A Faculdade de Medicina da Bahia criou, depois disso, seu excelente Instituto de Clínicas, que é um conjunto de laboratórios propostos a auxiliar os diagnósticos nas diversas clínicas da Faculdade.
Uma das características de Juliano Moreira era a de aglutinador e fundador de Entidades Médicas. Na Bahia foi um dos fundadores da Sociedade de Medicina e Cirurgia e da Sociedade de Medicina Legal da Bahia.
A vida na Bahia não estava fácil para Juliano, se por um lado era querido pelos alunos e admirado pelos colegas, por outro se sentia preso às amarras de um sistema hierárquico discriminador. Foi então que surgiu o convite do Ministro José Seabra para mudar-se para o Rio de Janeiro e assumir o Hospício Nacional de Alienados.
Com o apoio do Presidente Rodrigues Alves obtido através do Ministro Seabra teve condições de apoiar Teixeira Brandão, agora deputado federal, a aprovar a Lei de assistência aos alienados em 1903. Essa lei era baseada na lei francesa de 1838. Entre outras medidas, proibia a colocação dos doentes mentais em prisões e determinava humanização dos tratamentos.
Sua atuação no Hospício Nacional de alienados, além da melhora das condições físicas, retirada de grades, abolição de coletes e camisa de força, novos métodos de tratamento, consistiu em atrair vários jovens profissionais que mais tarde se tornaram figuras marcantes na profissão. Entraram para o corpo clínico Miguel Pereira, Antônio Austregésilo, Álvaro Ramos, Leitão da Cunha, G. Chardinal e Humberto Gotuzzo Como fizera na Bahia, criou um Laboratório e começou a fazer punções lombares diagnósticas. Dali proveio também o maior contingente clínico para a realização dos primeiros estudos feitos entre nós sobre a reação de Wassermann, donde o excelente trabalho do Dr. Arthur Moses, efetuado no Instituto Oswaldo Cruz. Quase ao mesmo tempo, aliás, instalou-se no Hospital Nacional a Seção do Laboratório, propostos às pesquisas da referida reação.
Em 1905 fundou os "Archivos Brasileiros de Psychiatria", "Neurologia e Medicina Legal". Juliano já havia sido Diretor dos Anais da Sociedade de Medicina e Cirurgia da Bahia e colaborador na Gazeta Médica da Bahia, do Brazil Médico e na Revista Médico-Cirúrgica do Rio de Janeiro.
Junto com Austregésilo, Ulysses Vianna, Henrique Roxo, Esposel e outros, fundou os "Archivos de Neuriatria", antes disso já havia fundado os Archivos Brasileiros de Medicina. Ele estava sempre estimulando e participando na difusão de idéias e nas pesquisas brasileiras nessa importante área da Medicina.
É de Juliano a iniciativa de construir no Engenho de Dentro uma colônia para mulheres e foi ele que adquiriu o terreno de Jacarepaguá onde foi construída a Colônia que leva seu nome.
Sua participação em entidades era marcante, foi fundador da Sociedade Brasileira de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal e em 1917 entrou para a Academia Brasileira de Ciências na vaga de Oswaldo Cruz.
Em 1928, foi convidado pelas Universidades de Tóquio, Kioto, Sendai, Hokaido, Fuknoka, Osaka, etc. no Japão, para fazer conferências sobre assuntos de sua especialidade. Em julho, seguiu ele para aquele país, para dar cumprimento à incumbência. Ali, foi recebido com especial deferência pelos médicos japoneses. As Sociedades Japonesas de Neurologia e Psiquiatria elegeram-no membro Honorário. Antes de partir, fez ainda na Universidade Feminina de Tóquio e no anfiteatro do grande diário "Nishi-Nishi" e na Rádio Sociedade, conferências de despedidas sobre o Brasil e os brasileiros e impressões sobre o Japão. O Imperador conferiu-lhe a Ordem do Tesouro Sagrado. Depois de cerca de quatro meses de permanência naquele país, visitou as cidades de maior importância no extremo oriente, seguindo então para a Europa, a fim de efetuar, em Hamburgo e Berlim conferências para que fora convidado. As Sociedades de Neurologia e Psiquiatria de Berlim, e Hamburgo elegeram-no seu membro Honorário. Assim como a Sociedade Médica de Munique e a Cruz Vermelha Alemã, a Universidade de Hamburgo conferiu-lhe a Medalha de Ouro, que é a maior honra que lhe é dado conferir a um professor estrangeiro.
Juliano Moreira foi o primeiro psiquiatra brasileiro a receber reconhecimento internacional e não é exagero dizer que nenhum outro depois dele conseguiu alcançar sua proeminência e aceitação internacional.
Segundo Oda e Dalgalarrondo: Seu espírito aberto e inquieto não ignorou a psicanálise; tendo domínio do alemão, conhecia as obras de Freud e tinha uma avaliação crítica delas. Numa resenha em que elogiou o livro de Franco da Rocha, "O pansexualismo na doutrina de Freud" (1920), referiu que a Sociedade Brasileira de Neurologia vinha promovendo palestras de divulgação da psicanálise e comentou, com sua ironia peculiar, que esta era pouco conhecida no país porque "No Brasil, em geral os colegas, em obediência à lei do menor esforço, aguardam que as idéias e as doutrinas passem primeiro pelo filtro francês para que nos dignemos a olhá-las contra a luz (...)".
Seu trabalho clínico e de administrador foi digno, construtivo e inovador. Sua capacidade de despertar interesse, aglutinar novos talentos ao seu redor foi excepcional. Sua preocupação em divulgar novos conhecimentos, fundar revistas, estimular as já existentes, sua participação em entidades de classe e na Academia Brasileira de Ciências foi inigualável. Sua participação em congressos Internacionais mostrava seu interesse em aprender e difundir, participar e divulgar.
Sua casa era um centro de atividades e de reuniões de alunos e colegas. Sua esposa Augusta ajudava a receber em longos saraus científicos. Numa sessão da Academia em homenagem a Juliano Moreira assim falou o Sr. Miguel Osório. "Todas as vezes que no Brasil um grupo de homens de ciência se formava para criar uma associação... o nome de Juliano Moreira era imediatamente lembrado como um elemento indispensável". "Ele trazia para o seio das associações esses encantadores predicados de calma e tranqüilidade, de benevolência e tolerância, de modéstia, e de discrição, de amor ao trabalho e moderação, que tornavam inconfundível sua maneira de ser".
Juliano padeceu de longa enfermidade que foi, aos poucos minando sua resistência e que acabou resultando na sua morte em 1933 na cidade de Correias.
Juliano Moreira tinha os dons naturais da inteligência e bondade, senão que não teve prevenções. Não foi nacionalista, nem teve freguesia intelectual. Ouviu os sons de todos os sinos. Aqui, Silva Lima tropicalista. Ali, Nina Rodrigues, médico legista. Estendeu as mãos a Teixeira Brandão e a Franco da Rocha. Propagou Kraepelin, sem esquecer Pierre Marie, nem Tolouse, Clouston e Morselli. Leu a todos, aprendeu de todos, a todos no seu tanto consagrou, com a citação, a aplicação, a correção. Freud, novidade de hoje, há trinta anos era estudado por ele na Bahia. Essa universalidade de espírito dispôs à razão para a tolerância do conhecimento, como a benignidade do coração para a tolerância das relações sociais. "Sage et savant". Sábio. Juliano Moreira, grande homem de ação e de Ciência, dispensa louvor dos adjetivos. Basta-lhe a fé de ofício de sua vida, nobremente preenchida. Basta-lhe a escola que criou e manteve, os discípulos que suscitou e promoveu. Basta o bem que fez. Estamos presentes quase todos, e depomos. Segundo a palavra sagrada, será a árvore julgada pelos frutos. Os destas o foram bem, a tolerância, a razão e essa flor sem fruto, mas que embalsama a ironia, que ajuda sorrindo no seu encanto a suportar a vida. Juliano Moreira, médico da razão doente, foi mestre da razão sadia, grande mestre da razão, o grande Juliano Moreira!
Bibliografia de Juliano Moreira registrados no Índice bibliográfico Brasileiro de Psiquiatria de minha autoria:

  1. Moreira, Juliano. As diretrizes da Higiene Mental entre nós. Rev.De Med.e Higiene Militar,Rio De Janeiro. 1922.
  2. ---. Asilo colônia de alienados em Juqueri,São Paulo. Gazeta Médica Da Bahia e Rev.Médica De São Paulo. 1901.
  3. ---. L'assistence des alienés au Brésil. Segundo Congresso Internacional De Assistência Aos Alienados,Milão,Itália. 1906.
  4. ---. Assistência a alienados no Pará e Rio Grande do Sul. Arq.Bras.De Psiquiatria,Neurologia e Ciências Afins. 1907; 3(4):429-435.
  5. ---. Assistência a psicopatas no Rio de Janeiro. Livro De Ouro Oferecido Ao Prof.Cabred,Buenos Aires. 1927.
  6. ---. Assistência aos bebedores. Archivos Bras.De Hygiene Mental. 1933; 6(2):123-126.
  7. ---. Assistência aos epilépticos, colônias para êles. Arq.Bras.De Psiquiatria,Neurologia e Ciências Afins. 1905; 1(2):167-182.
  8. ---. Benemérita campanha contra as intoxicações viciosas. Arq.Bras.De Neuriatria e Psiquiatria. 1921; 17:243-267.
  9. ---. Demência Paralítica. Formulário Do Brasil Médico,Rio De Janeiro. 1915.
  10. ---. Esboço de Psiquiatria Forense, pelo Dr. Franco da Rocha. Brasil-Médico. 1905; 19:149.
  11. ---. Factores hereditários em Psychiatria. Archivos Bras. De Hygiene Mental. 1919; 2(1):29-34.
  12. ---. Falsos testemunhos por desvios mentais. Arq.Bras.De Psiquiatria,Neurologia e Medicina Legal. 1912; 8:315-350.
  13. ---. Gesetz uber Irrenfursorge in Brasilien. Psychiatrisch Wochenscrift,Berlim. 1907; 307.
  14. ---. A Lei Federal de assistência a alienados e a crítica do Prof.Nina Rodrigues. Arq.Bras.De Psiquiatria,Neurologia e Ciências Afins. 1907; 3:77-97.
  15. ---. Ligeira vista sôbre a evolução da assistência a alienados na Alemanha. A clínica psiquiátrica de Munique. Arq.Bras.De Psiquiatria,Neurologia e Medicina Legal. 1908; 4(1-2):172-186.
  16. ---. Ligeiras notas a propósito da assistência familiar. Arq.Bras.De Psiquiatria,Neurologia e Ciências Afins. 1906; 2(1):25-29.
  17. ---. A lues como factor dystrophiante. Archivos Bras. De Hygiene Mental. 1929; 2(1):3-4.
  18. ---. Maladies nerveuses et mentales au Brésil. Paris (Conference). 1913.
  19. ---. Nota histórica sobre a evolução da Assistência a Alienados no Brasil. Arq. Bras. De Psiquiatria Neurologia e Ciências Afins. 1905; 1(1):65-101.
  20. ---. Notícia Sobre a Evolução da Assistência a Alienados no Brasil. Arq. Bras. De Psiquiatria Neurologia e Ciências Afins. 1895; 1:56-105.
  21. ---. O aniversário da fundação do Hospital Nacional de Psicopatas. Arq.Bras.De Neuriatria e Psiquiatria. 1927; 23:129-131.
  22. ---. O novo agrupamento nosographico das doenças mentaes do Professor Emil Kraepelin. Arq.Bras.De Neuriatria e Psiquiatria. 1921:181-189.
  23. ---. A pandemia gripal no Hospital Nacional e sua influência no curso das doenças mentais. Arq.Bras.De Medicina. 1919; 310.
  24. ---. Psicoses em leprosos. Arq. Bras. De Psiquiatria,Neurologia e Ciências Afins. 1906; 2(1):41-57.
  25. ---. Quais os melhores meios de assistência aos alienados? Arq.Bras.De Psiquiatria,Neurologia e Medicina Legal. 1910; 6(3-4):373-376.
  26. ---. Qualidades necessárias a um enfermeiro de psicopatas. Archivos Bras.De Hygiene Mental. 1933; 6(2):81-86.
  27. ---. Querelantes e pseudo-querelantes. Arq.Bras.De Psiquiatria,Neurologia e Medicina Legal. 1908; 4:426-434.
  28. ---. Reformatório para alcoolistas. Archivos Bras.De Hygiene Mental. 1929; 2(2):61-63.
  29. ---. Reformen der Irrenfursorge in Rio de Janeiro. Psychiatrisch Neurologisch Wochenscrift,Berlim. 1905; 33.
  30. ---. A seleção individual de imigrantes no programa de higiene mental. Archivos Bras.De Hygiene Mental. 1925; 1(1):109-115.
  31. ---. A Sífilis como fator de degeneração. Gazeta Médica Da Bahia. 1899; julho.
  32. ---. Trabalhos de antialcoolismo-Assistência aos bebedores. Archivos Bras.De Hygiene Mental. 1933; 6(..):123-126.
  33. ---. Um caso de paranoia. Arq.Bras.De Psiquiatria,Neurologia e Ciências Afins. 1907; 3:377-387.
  34. Moreira, Juliano and Peixoto, Afrânio. Classificação das molestias mentaes do professor Emil Kraepelin. Arq.Bras.De Psiquiatria Neurologia e Ciências Afins. 1905; 1(2):214-214.
  35. ---. Les Maladie Mentales au Brésil. Comunicação Ao Congresso Int.De Psiquiatria De Amsterdam. 1907.
  36. ---. Les Maladies Mentales dans les Climats Tropicaux(Relatório ao XV Congrès Int. de Médecine). Arq.Bras.De Psiquiatria Neurologia e Ciências Afins. 1927; 2:222-241.
  37. ---. A paranoia e os síndromes paranoides. Arq.Bras.De Psiquiatria,Neurologia e Ciências Afins. 1905; 1(1):5-33.
  38. Moreira, Juliano and Pennafiel, Carlos. A contribution to the study of dementia paralytica in Brazil. Journal of Mental Science,London. 1907.
  39. Moreira, Juliano and Vianna, Ulisses. Contribuição ao estudo da demência paralítica no Rio de Janeiro especialmente no Hospital Nacional de Alienados. Arq.Bras.De Neurologia e Medicina Legal. 1916.
  40. Peixoto, Afrânio and Moreira, Juliano. A paranoia e os sintomas paranóides. Brasil Médico. 1904.
  41. ---. La Paranoia légitime, son origene et nature. Relatório Ao 15o Congresso Internacional De Medicina,Lisboa. 1906.

Bibliografia consultada:

  1. Afrânio Peixoto. À memória de Juliano Moreira. Fundador e Presidente da Academia. Ata da sessão Ordinária de 23 de maio de 1933 (p18-36). Anais da Academia Brasileira de Ciências. Tomo V. n 2. junho 1933. p. 81-97.
  2. Miguel Osório. À memória .. p 81-97.
  3. Roquete Pinto. À memória... p. 81-97
  4. Oda, Ana Maria Galdini Raimundo // Dalgalarrondo, Paulo: Juliano Moreira: um psiquiatra negro frente ao racismo científico. Rev. Brás. Psiquiatr. 2000(4); 178-179
  5. Paim, Isaias. Tratado de Clínica Psiquiátrica. São Paulo. Ed. Grijalbo, 1976.

Fonte : http://www.polbr.med.br/arquivo/wal0702.htm
Memória


Juliano Moreira: um psiquiatra negro frente ao racismo científico
Juliano Moreira (1873-1933), baiano de Salvador, é freqüentemente designado como fundador da disciplina psiquiátrica no Brasil. Sua biografia justifica tal eleição: mestiço (mulato), de família pobre, extremamente precoce, ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia aos 13 anos, graduando-se aos 18 anos (1891), com a tese "Sífilis maligna precoce". Cinco anos depois, era professor substituto da seção de doenças nervosas e mentais da mesma escola. De 1895 a 1902, freqüentou cursos sobre doenças mentais e visitou muitos asilos na Europa (Alemanha, Inglaterra, França, Itália e Escócia).1
De 1903 a 1930, no Rio de Janeiro, dirigiu o Hospício Nacional de Alienados. Neste, embora não fosse professor da Faculdade de Medicina do Rio, recebia internos para o ensino de psiquiatria. Aglutinou ao seu redor médicos que viriam a ser, eles também, organizadores ou fundadores na medicina brasileira, de diversas especialidades: neurologia, psiquiatria, clínica médica, patologia clínica, anatomia patológica, pediatria e medicina legal, tais como Afrânio Peixoto, Antonio Austragésilo, Franco da Rocha, Ulisses Viana, Henrique Roxo, Fernandes Figueira, Miguel Pereira, Gustavo Riedel e Heitor Carrilho, entre outros.2
Um aspecto marcante na obra de Juliano Moreira foi sua explícita discordância quanto à atribuição da degeneração do povo brasileiro à mestiçagem, especialmente a uma suposta contribuição negativa dos negros na miscigenação. A posição de Moreira era minoritária entre os médicos, na primeira década do século XX, época em que ele mais diretamente se referiu a esta divergência, polemizando com o médico maranhense Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906). Também desafiava outro pressuposto comum à época, de que existiriam doenças mentais próprias dos climas tropicais.3,4
Convém ressaltar que a teoria da degenerescência nunca seria colocada em questão por Moreira, mas apenas os seus fatores causais. Para ele, na luta contra as degenerações nervosas e mentais, os inimigos a combater seriam o alcoolismo, a sífilis, as verminoses, as condições sanitárias e educacionais adversas, enfim; o trabalho de higienização mental dos povos, disse ele, não deveria ser afetado por "ridículos preconceitos de cores ou castas (...)".4
Em seu discurso de posse, ao ser aprovado no concurso para professor da Faculdade de Medicina da Bahia, em maio de 1896, Moreira descreveu de forma tão elegante quanto contundente o que parece ser sua experiência pessoal com relação ao marcante preconceito de cor na sociedade brasileira de então. Endereçando-se "(...) a quem se arreceie de que a pigmentação seja nuvem capaz de marear o brilho desta faculdade (...)", disse: "Subir sem outro bordão que não seja a abnegação ao trabalho, eis o que há de mais escabroso. (...) Em dias de mais luz e hombridade o embaçamento externo deixará de vir à linha de conta. Ver-se-á, então que só o vício, a subserviência e a ignorância são que tisnam a pasta humana quando a ela se misturam (...). A incúria e o desmazelo que petrificam (...) dão àquela massa humana aquele outro negror (...)"2 (págs.17-18).
Resumidamente, pode-se dizer que, de meados do século XIX até cerca de 1910, o país se definia prioritariamente pela raça, isto é, as discussões sobre o caráter nacional e o futuro da nação passavam pela solução dos problemas atribuídos à miscigenação do povo brasileiro. A partir da década de 1910, e especialmente após o fim da Primeira Guerra Mundial, o movimento pelo saneamento rural do Brasil ganhou força, e se deslocou o foco para a doença ou as doenças dos brasileiros. Um Brasil desconhecido seria revelado a partir de expedições de órgãos do governo, como as de Cândido Rondon, do Mato Grosso ao Amazonas, em 1907 e 1908, e as expedições científicas de Oswaldo Cruz. A famosíssima frase do médico Miguel Pereira, "O Brasil é um imenso hospital", dita em 1916, marcou o início deste movimento. A exprobração à mestiçagem e ao nosso clima tropical cedeu lugar à condenação ao governo por abandonar as populações interioranas; seu atraso passou a ser atribuído ao isolamento geográfico e às infestações por doenças parasitárias, especialmente ancilostomose e doença de Chagas. Ao mesmo tempo, intensas campanhas sanitárias eram coordenadas por Oswaldo Cruz, contra a febre amarela e contra a varíola, doenças que espantavam muitos visitantes e imigrantes do Brasil. A doença tornou-se a chave para a identificação do Brasil, a higienização sua possibilidade de redenção.5 A ciência, mais especificamente a medicina, tendeu, então, a se auto-representar como norteadora do processo de definição da nacionalidade e da modernização do país.6
O contexto político e cultural de sua época deve ser considerado quando se analisa a obra e a atuação de Juliano Moreira. Ele alinhou-se às correntes que então representavam a modernização teórica da psiquiatria e da prática asilar. Demonstrou isto em sua filiação à escola psicopatológica alemã  foi divulgador da obra de Kraepelin  e nas mudanças que introduziu quando assumiu o Hospício Nacional de Alienados.
Como ele mesmo descreveu, foram estas as mudanças: instalação de laboratórios de anatomia patológica e de bioquímica no hospital; remodelação do corpo clínico, com entrada de psiquiatras/neurologistas e outros especialistas (de clínica médica, pediatria, oftalmologia, ginecologia e odontologia); a abolição do uso de coletes e camisas de força; a retirada de grades de ferro das janelas; a preocupação com a formação dos enfermeiros; o grande cuidado com os registros administrativos, estatísticos e clínicos, entre outros. Sua atuação institucional incluiu a organização da "Assistência aos Alienados", mais tarde Serviço Nacional de Assistência aos Psicopatas, tendo redigido, em 1903, uma proposta de reforma do Hospício Nacional e insistido junto ao governo para a aprovação da legislação federal de assistência aos alienados, promulgada em 22/12/1903.7,8
Sua extensa obra escrita abrangeu várias áreas de interesse; inicialmente, publicou estudos nas áreas de sifiligrafia, dermatologia, infectologia e anatomia patológica. A seguir, concentrou-se cada vez mais nas doenças nervosas e mentais, em descrições clínicas e terapêuticas, escreveu sobre modelos assistenciais e sobre a legislação referente aos alienados, discutiu a nosografia psiquiátrica e estudou as histórias da medicina e da assistência psiquiátrica no Brasil. Tinha especial interesse pela então chamada "psiquiatria comparada", ou seja, as manifestações das doenças mentais em culturas diversas, como atesta a sua correspondência com Emil Kraepelin.9
Seu espírito aberto e inquieto não ignorou a psicanálise; tendo domínio do alemão, conhecia as obras de Freud e tinha uma avaliação crítica delas. Numa resenha em que elogiou o livro de Franco da Rocha, "O pansexualismo na doutrina de Freud" (1920), referiu que a Sociedade Brasileira de Neurologia vinha promovendo palestras de divulgação da psicanálise e comentou, com sua ironia peculiar, que esta era pouco conhecida no país porque "No Brasil, em geral os colegas, em obediência à lei do menor esforço, aguardam que as idéias e as doutrinas passem primeiro pelo filtro francês para que nos dignemos a olhá-las contra a luz (...)".10
Ao longo de toda sua vida, participou de muitos congressos médicos e representou o Brasil no exterior, na Europa e no Japão. Foi membro de diversas sociedades médicas e antropológicas internacionais; fundou, em colaboração com outros médicos, os periódicos Arquivos Brasileiros de Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal (1905), Arquivos Brasileiros de Medicina (1911) e Arquivos do Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro (1930) e a Sociedade Brasileira de Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal (1907).
Finalizando, para melhor entender a atuação de Juliano Moreira deve-se recordar que, nas primeiras décadas do século XX, a medicina brasileira acreditava ser capaz de dirigir o processo de modernização e sanitarização do país. Assim também cria Juliano Moreira e sua atuação foi coerente com esta visão; para ele, o principal papel da psiquiatria estava na profilaxia, na promoção da higiene mental e da eugenia. Em que pese o caráter francamente intervencionista deste projeto médico, não se pode negar o brilhantismo, a coragem e a originalidade deste fundador da psiquiatria brasileira.
 
Ana Maria Galdini Raimundo Oda e Paulo Dalgalarrondo
Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp
 
 
Referências
1. Carvalhal LA. Loucura e Sociedade: o pensamento de Juliano Moreira (1903-1930) [monografia de bacharelado em História]. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro; 1997.
2. Passos A. Juliano Moreira (vida e obra). Rio de Janeiro: Livraria São José; 1975.
3. Moreira J, Peixoto A. Les maladies mentales dans le climats tropicaux. Arq Bras Psiquiatr Neurol Ciênc Afins 1906;II(1):222-41.
4. Moreira J. A luta contra as degenerações nervosas e mentais no Brasil (comunicação apresentada no Congresso Nacional dos Práticos). Brasil Médico 1922;II:225-6.
5. Lima NT, Hochman G. Condenado pela raça, absolvido pela medicina: o Brasil descoberto pelo movimento sanitarista da primeira república. In: Maio MC, Santos RV, organizadores. Raça, Ciência e Sociedade. Rio de Janeiro: Fiocruz; 1996. p.23-40.
6. Schwarcz LM. O espetáculo da miscigenação. In: O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil, 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras; 1993. p.11-22.
7. Moreira J. Notícia sobre a evolução da assistência a alienados no Brasil (1905b). Arq Bras Neuri Psiquiatr 1955; edição especial.
8. Arquivos do Manicômio Judiciário do Rio De Janeiro  Professor Juliano Moreira. Arq do Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro 1933;IV(1-2):3-20.
9. Dalgalarrondo P. Cartas de Juliano Moreira a Emil Kraepelin. In: Civilização e Loucura: Uma Introdução à História da Etnopsiquiatria. São Paulo: Lemos; 1996. p.117-24.
10. Moreira J. Resenha de O pansexualismo na doutrina de Freud, de Franco da Rocha. Brasil Médico 1920;XXIII (6):365-6.                                                                                                                                              


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Biografia de Juliano Moreira
por: Biblioteca da Saúde
Nasceu em 6 de janeiro de 1873, no bairro da Sé, na cidade de Salvador, Bahia. Foi, segundo seu discípulo Afrânio Peixoto, médico tropicalista, dermatólogo, sifilógrafo, alienista, psicólogo, naturalista e historiador da Medicina. 
Juliano Moreira é freqüentemente designado como fundador da disciplina psiquiátrica no Brasil. Sua biografia justifica tal eleição; mestiço (mulato), de família pobre, extremamente precoce. Começou a estudar no Colégio D. Pedro II e, depois no Liceu Provincial. Entrou cedo para a Faculdade de Medicina (1886) e formou-se com 18 anos, em vésperas de completar 19, em 1891. Durante o curso e sempre através de concursos, foi interno da Cadeira de Moléstias Cutâneas e Preparador de Anatomia Médico-Cirúrgica. Sua tese de doutoramento foi sobre Etiologia da Sífilis Maligna Precoce. Cinco anos depois, era Professor Substituto  da Seção de Doenças Nervosas e Mentais da mesma escola. De 1895 a 1902 freqüentou cursos sobre doenças mentais e visitou muitos asilos na Europa (Alemanha, Inglaterra, França, Itália e Escócia).
De 1903 a 1930, no Rio de Janeiro, dirigiu o Hospício de Alienados. Neste, embora não fosse professor da Faculdade de Medicina do Rio, recebia os internos para o ensino de psiquiatria. Aglutinou ao seu redor médicos que viriam a ser, eles também, organizadores ou fundadores na medicina brasileira, de diversas especialidades: neurologia, psiquiatria, clínica médica, patologia clínica, anatomia patológica, pediatria e medicina legal tais como Afrânio Peixoto, Antônio Austregésilo, Franco da Rocha, Ulisses Viana, Henrique Roxo, Fernandes Figueira, Miguel Pereira, Gustavo Riedel e Heitor Carrilho, entre outros.
Um aspecto marcante de Juliano Moreira foi sua explícita discordância quanto à atribuição da degeneração do povo brasileiro à mestiçagem, especialmente a uma suposta contribuição negativa dos negros na miscigenação. A posição de Moreira era minoritária entre os médicos, na primeira década do século XX, época em que mais diretamente  se referiu a esta divergência, polemizando com o médico maranhense Raimundo Nina Rodrigues (1826/1906). Também desafiava outro pressuposto comum à época, de que existiriam doenças mentais justify>Convém ressaltar que a teoria da degenerescência nunca seria colocada em questão por Moreira, mas apenas os seus fatores causais. Para ele, na luta contra as degeneraçãoes nervosas e mentais, os inimigos a combater seriam o alcoolismo, a sífilis, as verminoses, as condições sanitárias e educacionais adversas, enfim; o trabalho de higienização mental dos povos, disse ele, não deveria ser afetado por "ridículos preconceitos de cores ou castas(...)".
Em seu discurso de posse, ao ser aprovado no concurso para professor na Faculdade de Medicina da Bahia, em maio de 1896, Moreira descreveu de forma tão elegante quanto contundente o que parece ser sua expoeriência pessoal com relação ao marcante preconceito de cor na siociedade brasileira de então.
Endereçando-se"(...) a quem se arreceie de que a pigmentação seja nuvem capaz de  marear o brilho desta faculdade (...)", disse: "Subir sem outro bordão que não seja a abnegação ao trabalho, eis o que há de mais escabroso. (...). Em dias de mais luz e hombridade o embaçamento externo deixará de vir à linha de conta.Ver-se-á, então que só o vício, a subserviência e a ignorância são que tisnam a pasta humana qundo a elase misturam (...). A incúria e o desmazelo que petrificam(...), dão àquela massa humana aquele outro negror(...)" pp 17/18.
Resumidamente, pode-se dizer que, de meados do século XIX até cerca de 1910, o país se definia prioriáriamaete pela raça, isto é, as discussões sobre o caráter nacional e o futuro da nação passavam pela solução de problemas atribuídos à miscigenação do povo brasileiro. A partir da década de 1910, e após o fim da Primeira Guerra Mundial, o movimento pelo saneamento rural do Brasil ganhou força, e se deslocou o foco para doença ou doenças dos brasileiros. Um Brasil desconhecido seria revelado a partir de expedições de órgãos do governo, como as de Cândido Rondon, do Mato Grosso ao Amazonas, em 1907 e 1908, e as expedições científicas de Oswaldo Cruz. A famosíssima frase do médico Miguel Pereira, "O Brasil é um imenso hospital", dita em 1916, marcou o início deste movimento. A exprobração à mestiçagem e ao nosso clima tropical cedeu lugar à condenação ao governo por abandonar as populações interioranas; seu atraso passou a ser atribuído ao isolamento geográfico e às infestações por doenças parasitárias, especialmente ancilostomose e doença de Chagas. Ao mesmo tempo, intensas campanhas sanitárias eram coordenadas por Oswaldo Cruz, contra a febre amarela e contra a varíola, doenças que espantavam muitos visitantes e imigrantes do Brasil. A doença tornou-se a chave para a identificação do Brasil, a higienização sua possibilidade de redenção.5 A ciência, mais especificamente a medicina, tendeu, então, a se auto-representar como norteadora do processo de definição da nacionalidade e da modernização do país.
Quando se analisa a obra e a atuação de Juliano Moreira, deve-se considerar o contexto político e cultural no qual esteve imerso.Alinhou-se às correntes que então representavam a modernização teórica da psiquiatria e da prática asilar. Tais fatos se demonstram na sua filiação à escola de psicopatologia alemã, da qual foi divulgador de Kraepelin, e nas mudanças que introduziu ao assumir o Hospital Nacional de Alienados.
Como ele mesmo descreveu, foram estas as mudanças: instalação de laboratórios de anatomia patológica  e de bioquímica no hospital; remodelação do corpo clínico , com entrada de psiquiatras/neurologistas e outros especialistas ( de clínica médica, pediatria, oftalmologia, ginecologia, e odontologia); a abolição do uso de coletes e camisas de força; a retirada de grades de ferro das janelas ; a preocupação com a formação dos enfermeiros ; o grande cuidado estatísticos e clínicos, entre outros. Sua atuação institucional inclui a organização da "Assistência aos Alienados", mais tarde Serviço Nacional de Assistência aos Psicopatas, tendo redigido, em 1903, uma proposta de reforma do Hospício Nacional e insistido junto ao governo para a aprovação da legislação federal de assistência aos alienados, promulgada em 22/12/1903.
Foi o introdutor no Brasil da clinoterapia, como método de tratamento das doenças mentais. Foi quem primeiro efetuou, na clínica neurológica e psiquiátrica da Bahia (...) a punção lombar com fins de diagnóstico, em casos de tabes dorsalis, demência paralítica, sífilis cerebral  e meningites várias.
Em 1905 fundou os "Archivos Brasileiros de Psychiatria", "Neurologia e Medicina Legal" e já havia sido Diretor dos Anais da Sociedade de Medicina e Cirurgia da Bahia, bem como  colaborador na Gazeta Médica da Bahia, no Brazil Médico e na Revista Médico Cirúrgica do Rio de Janeiro.
Junto com Austregésilo, Ulysses Vianna, Henrique Roxo, Esposel e outros, fundou os "Archivos de Neuriatria", antes disso já havia fundado os "Archivos Brasileiros de Medicina.Ele estava sempre estimulando e participando na difusão de idéias e nas pesquisas brasileiras nessa importante área da Medicina.
É de Juliano Moreira a iniciativa de se construir no Engenho de Dentro uma Colônia para mulheres e foi ele quem adquiriu o terreno de Jacarepaguá onde foi construída a Colônia que leva seu nome.
Sua extensa obra escrita abrangeu várias áreas de interesse; inicialmente publicou estudos nas áreas de sifiligrafia, dermatologia, infectologia e anatomia patológica. A seguir concentrou-se cada vez mais nas doenças nervosas e mentais, em descrições clínicas e terapêuticas, escreveu sobre modelos assistenciais e sobre legislação referente aos alienados, discutiu a nosografia psiquiátrica e  estudou as histórias da Medicina e da Assistência Psiquiátrica no Brasil. Tinha especial interesse pela então chamada "psiquiatria comparada", ou seja, as manifestações das doenças mentais em culturas diversas, como atasta a sua correspond~encia com Emil Kraepelin.
Seu espírito aberto e inquieto não ignorou a psicanálise; tendo domínio do alemão, conhecia as obras de Freud e tinha uma avaliação crítica delas.
Em 1928 foi convidado pelas Universidades de Tóquio, Kioto, Sendai, Hokaido, Fuknoka, Osaka, etc. no Japão, para fazer conferências sobre assuntos de sua especialidade. (...) O Imperador conferiu-lhe a Ordem do Tesouro Sagrado. Depois de cerca de quatro meses de permanência naquele país (...) seguiu  para a Europa. As sociedades de Neurologia e Psiquiatria de Berlim e Hamburgo elegeram-no seu Membro Honorário. A Sociedade Médica de Munique e a Cruz Vermelha Alemã, bem como a Universidade de Hamburgo conferiram-lhe a Medalha de Ouro, que é a maior honraria concedia a um professor estrangeiro.
Juliano Moreira foi o primeiro psiquiatra brasileiro a receber o reconhecimento internacional e não é exagero dizer que nenhum outro depois dele conseguiu alcançar sua proeminência e aceitação internacional.
Faleceu na cidade de Correias, em 1933, após longa enfermidade que foi aos poucos minando sua resistência.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ODA, Ana Maria Galdini Raimundo; DALGALARRONDO, Paulo. Juliano Moreira: um psiquiatra negro frente ao racismo cientifico. Revista Brasileira de Psiquiatria. v.22, n.4, dez. 2000. Disponivel em : http://www.scielo.org  Acesso em: 30 ago 2005.
PICCININI, Walmor. Juliano Moreira.Um brasileiro extraordinário. Psychiatry On-line Brazil n.7, jul. 2002.Disponível em: http://www.polbr.med/arquivo/wal0702htm

 

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